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1982 – A democracia corinthiana e o esquecimento desta luta

Sócrates, Casagrande, Zenon e Wladimir na década de 80 mudaram o modo de gerir futebol no Brasil dando início a que foi chamada de democracia corinthiana.

O prólogo da revolução e a iniciação de Sócrates

Muitos jornalistas descrevem este fato como certamente a revolução mais impactante do nosso futebol pós-Pelé. Juca Kfouri e o marketing do Corinthians deram esse nome em meio a Ditadura Militar que sempre mexeu com tudo no país. Com isso, desde o esporte até a vida pessoal de alguns atletas que eram perseguidos por seus pensamentos.

Para falar do início precisamos focar em um nome que foi o símbolo deste emblemático período. Sócrates.

Filho do Seu Raimundo, Paraense que cresceu em Ribeirão Preto, Sócrates estudava medicina e era jogador do Botafogo-SP. O jogador não queria sair de Ribeirão Preto até que a proposta do gigante Corintians mudou sua mente e sua percepção da vida.

Pelo Botafogo em duas passages foram 276 jogos e 102 gols marcados. Contudo, o seu sucesso maior foi após a chegada no Parque São Jorge. Em 1978 o filho do Seu Raimundo migrava de Ribeirão Preto para a capital, para o clube do povo.

Diante de 120 mil torcedores, Sócrates estreou contra o Santos em 1978, seu time do coração. Seis dias depois da estreia ele marcou seu primeiro gol, diante da Ferroviária.

Daí em diante, Sócrates encantou e se tornou ídolo destes tempos alvinegros.

Porém, contudo e todavia, o Corinthians foi mal nos anos seguintes e a campanha de 1981 foi a pior do clube da época. Foi o primeiro rebaixamento do clube que terminou em 26º na tabela e em 8º no Campeonato Paulista daquele ano. Contudo, a saída de Vicente Matheus da presidência do clube deu início ao reinado de Waldemar Pires.

Waldemar indicou para a diretoria de futebol do clube o sociólogo e psicólogo Adílson Monteiro Alves, que ouvia os jogadores e começou a dar voz a Sócrates e Wladimir.

Foi aí que começou a revolução. Entre outras medidas, os atletas liberaram os casados da concentração. Em campo, a autogestão rendeu gols. O técnico Mário Travaglini levou o time às semifinais do Brasileiro e faturou o campeonato paulista de 1982.

O meio e o fim da Democracia Corinthiana

Os pedidos do quarteto principal deste movimento sempre foi ligado ao direito de voz dos atletas. Antes, o que era dito pelo presidente e os dirigentes era lei, os atletas reféns por serem dependentes destes para se obter seu pagamento e uma vida mais normalizada no clube. No período que Waldermar Pires foi presidente o marketing do clube surgiu de forma revolucionária e impactante.

O Brasil vivia a tensão que antecedeu o fim da Ditadura Militar, então todo tipo de protesto foi aprovado de ser feito pelo clube. Frases políticas nas camisas, declarações políticas dos principais nomes do elenco e diversas outras manifestações.

Biro-Biro, Ataliba, Zé Maria, Zenon e Eduardo eram nomes de impacto no elenco certamente. Contudo, eram atletas com pouca voz diante do clima que se estabelecia. Porém, com o passar dos tempos e a confiança se estabelecendo, todos ganharam funções dentro e fora de campo neste período no Parque São Jorge por parte da Democracia Corinthiana.

O movimento causou desconforto entre os militares que, através do brigadeiro Jerônimo Bastos, pediram moderação ao clube.

Além disso, durante o período de autogestão, o Corinthians quitou todas as suas dívidas, e ainda deixou para o próximo período uma reserva no caixa de US$3.000.000.

O manda-chuva da Rede Globo, Boni, sempre foi corinthiano roxo e ajudou a propagar todo o movimento pelo Brasil. Parte da área de marketing e publicidade do clube nomeou ele e até mesmo Rita Lee como embaixadores do clube para o auxílio na divulgação deste período.

O vilão e o trapalhão

Assim como haviam os amantes do movimento, haviam também os anti-revolucionários. O goleiro Leão, além de vilão debaixo das traves do Santos, também era vilão nas declarações contra todo o movimento que ele  classificava como baderneiro e desqualificado. Outro trapalhão era o ex-presidente do clube, Vicente Matheus, que internamente tumultuava o clima com diversas declarações contrárias e o que ele pôde fazer para prejudicar o clube, ele fez.

De democracia não tinha nada. Era um movimento bom para os que comandavam, mas os outros só batiam palma. A Democracia Corintiana tinha os quatro traíras: SócratesWladimir e Casagrande, que era bocudo, além do Adilson Monteiro Alves – Emerson Leão

O triste ano de 1984

Em 1984, dois dos principais nomes do movimento e do clube saíram. Casagrande foi para o São Paulo e Sócrates foi para a Itália. Isso prejudicou e muito todo o processo que fora estabelecido e os nomes anti-revolucionários ganharam força internamente.

A saída de Sócrates foi dita como em protesto a não aprovação naquele ano da Emenda Constitucional Dante de Oliveira. Emenda que visava a instalação de Eleições Diretas no país.

Com articulação da criação do Clube dos 13, uma iniciativa voltada e com base em pensamentos dos criadores da Democracia Corinthiana, tudo que foi motivo de luta para os que fizeram parte começou a ser implantado. A figura de um presidente eleito democraticamente para o movimento era algo que foi visto com bons olhos pela Democracia e o sonho só foi possível quase 4 anos depois, em 1987/88 na polêmica Copa União.

O movimento ameaçou um retorno no fim da década, mas sem sucesso. A mensagem deste período é que o futebol também é um ato político. Podendo sim auxiliar no dia a dia e nas causas sociais.

As frases utilizadas pela Democracia com o ”Diretas Já” ou ” Eu quero votar para Presidente”. Estas ecoaram nos salões militares pelo país.

O esquecimento da Democracia Corinthiana

O esquecimento, principalmente por conta dos que abraçaram esse movimento diz mais respeito a quem traiu o movimento do que quem hoje está no poder. O futebol se tornou muito mais complexo e comercial. Então deixou de atender as demandas do povo e passou a atender o que a grande mídia queria e o que as grandes empresas pediam. Nos escândalos políticos atuais, que inclui o partido que Sócrates tanto defendeu.  Ficou claro que a mensagem do doutor e de seus camaradas lá nos anos 80 foram esquecidas por essa galera. Principalmente os que estavam há pouco no poder.

A figura que foi criada após os problemas de alguns membros do período com drogas e o alcoolismo foi cruel. Contudo, o período foi muito maior que tudo isso, que realmente assolou alguns membros.

Certamente hoje em dia a figura de Casagrande. Que se recupera diariamente de seu vício tem ligação com a pressão do período que ele fez parte. Assim como, todavia, muitos nomes do esporte da época possuem problemas principalmente com o alcoolismo e tabaco. Contudo, o futebol dos anos 70 até os anos 90 ceifou muitas vidas com a mudança repentina.

A Democracia Corinthiana durou de 1981 até o início de 1985. Certamente e é um dos períodos da história do nosso futebol e principalmente do Corinthians dos mais importantes e impactantes.

 

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